Viana do Castelo: uma joia entre o mar e a montanha

É uma cidade bafejada pela sorte, com mar, rio e montanha a marcar o seu perfil. Irresistível pela diversidade gerada no seu interior. A “princesa do Lima” consegue encantar pela forma como tece a tradição à contemporaneidade, nas suas várias facetas. À mesa, nas artes e na hospitalidade, Viana fica-nos como uma joia a pender do coração.

 

Nuno Freitas é o primeiro a gabar a «geografia incrível» de Viana do Castelo. É um território com mar, rio e montanha e todos esses elementos próximos entre si. Ele e a mulher, Rute Esteves, dedicaram-se a facilitar o usufruto destas qualidades, com a abertura, há pouco mais de dois anos, da casa de hóspedes Dona Emília. Fica no coração da cidade, com vista para alguns dos seus emblemas: a Praça da República, o Museu do Traje e o monte de Santa Luzia.

A Dona Emília que é homenageada nesse nome existe mesmo – é a carismática avó de Nuno, e pode-se conhecer a sua cara sorridente através de uma fotografia, na receção. «É uma pessoa com muitos valores, que sempre lutou pelos direitos das mulheres e que cantava fado», resume Rute. Nos anos de 1940, ela e o marido, o avô de Nuno, cediam quartos da sua grande casa a hóspedes de longa duração, que se tornavam amigos. É esse espírito de proximidade e confiança que o casal quer transportar para esta casa de hóspedes, que decorou de forma cuidada, com algo de boutique.

A Dona Emília que dá nome à casa de hóspedes de Nuno e Rute sorri de uma fotografia, na receção.
Fotografia: Rui Manuel Fonseca/GI

Lá dentro, há seis quartos e suites, cujos nomes refletem a vista das janelas – Praça, Traje e Luzia. O ambiente espelha os percursos de Nuno, que é arquiteto, e de Rute, que foi bailarina e dá aulas de dança. Arquitetura, design de interiores e cultura misturam-se ali e na própria família: a mãe de Rute, conhecida como Noia, tem a Loja Laranja, de mobiliário vintage, com presença na decoração da Casa. E a irmã, Célia Esteves, criou o projeto GUR, de tapetes feitos em tear manual, com base em desenhos de ilustradores e artistas. Há alguns nas paredes deste edifício centenário, assim como obras de criadores locais, e uma exposição permanente no andar superior, inundado de luz pela generosa claraboia.

Artes contemporâneas e um museu discreto

Um dos artistas representados na Dona Emília é Paulo Barros, que tem o seu Espaço ali perto. Funciona sem horário certo, embora seja provável encontrá-lo lá à tarde. Isto se não tiver ido à pesca… É que o mar (e a natureza em geral) é uma influência para aquele artista mais focado nas áreas do desenho e da pintura, agora muito ligado às técnicas de impressão. «Tento trabalhar com a prensa como se fosse uma ferramenta de desenho também», diz Paulo, que se interessa por «processos relacionados com o aleatório, o acaso e o erro». Quem ali for pode adquirir, além de obras de arte, móveis vintage da Loja Laranja.

Há em Viana outro lugar dedicado às criações contemporâneas, essencialmente portuguesas. Trata-se do Armazém 66, que David Vieira criou após constatar que «é muito difícil ser arquiteto neste país». Neto de comerciantes, abriu há dois anos a loja que sempre quis ter, com diversos produtos de que gosta. «Identifico-me com tudo o que está aqui e estou sempre a procurar coisas novas. Já vendi plantas e mobiliário, bicicletas e vinho», conta ele, que mantém a aposta nos vinhos e nos pedais, acrescentando-lhes candeeiros, mochilas, joias, roupa de autor ou postais.

O Armazém 66 centra-se nas criações contemporâneas portuguesas; vende desde móveis e bicicletas até vinhos ou joias.
Fotografia: Rui Manuel Fonseca/GI

Da contemporaneidade ao passado é um salto, como quase tudo em Viana. O Museu de Artes Decorativas, instalado numa casa nobre do século XVIII, reúne mais de 5000 peças, entre cerâmica, mobiliário, pintura, desenho, azulejos, escultura e numismática.

Só 20% da coleção está à vista, pelo que se procura ir renovando a exposição, focada, em grande parte, na faiança da fábrica de Darque – Viana e de outros pontos do país. A casa, em si, já merece atenção. No piso nobre, destacam-se três salas com painéis de azulejos historiados, que representam cenas da vida palaciana, cenas de caça e os continentes da Europa, Ásia, África e América, e uma capela privada.

A guia Judite Ferreira ajuda a perceber a beleza de tudo, ao pormenor. Sem ela, não saberíamos que o contador hispano-mourisco de talha dourada e marfim policromado do século XVI tem uma parte falsa para guardar objetos ou documentos de especial valor – o segredo.

A guia Judite Ferreira ajuda a perceber a beleza de tudo, ao pormenor. Sem ela, não notaríamos que, na capela, Cristo surge crucificado com quatro pregos, em vez dos habituais três; nem saberíamos que o contador («o avô dos cofres e das escrivaninhas») hispano-mourisco de talha dourada e marfim policromado do século XVI tinha uma parte falsa para guardar objetos ou documentos de especial valor – o segredo; ou que as pinturas sobre vidro que integram uma escrivaninha do século XIX foram feitas por dentro, por camadas.

A riqueza da mesa

Outra das riquezas de Viana encontra-se à mesa, onde também se vai criando pontes entre o passado e o presente. Como aquela que se corporiza na casa de peixes e mariscos que abriu, no verão, na doca de pesca. Chama-se Os Mareantes este projeto de João Silva e Lara Guia, que em tudo evoca o mar e os pescadores, da carta à decoração em tons azuis.

«Queríamos um espaço acolhedor, familiar, com o sabor da nossa terra», explica Lara, que é da zona piscatória da Ribeira e se lembra de ver ali, há décadas, um armazém de gás. Hoje, é um restaurante de aspeto cuidado, mas despretensioso, com uma ementa pouco extensa, para não desviar do essencial: pratos de marisco e peixe da nossa costa que ali chegam «vivinhos, a saltar». Arroz de navalheiras, de lavagante, de tamboril, lagosta e caldeirada de peixe são algumas das possibilidades, sendo que tudo é confecionado na hora.

O arroz de navalheiras do restaurante Os Mareantes é servido no tacho.
Fotografia: Rui Manuel Fonseca/GI

Outra das novidades na oferta gastronómica da cidade é, de certa maneira, um atrevimento – em terra de mar e rio, surgiu este Pecado Capital onde a carne é rainha. Fica junto ao Lima, embora Rúben Oliveira tenha começado por abrir na Areosa. Até decidir mudar-se para o centro da cidade e investir nos vinhos (há mais de 300 referências) e nas carnes, com destaque para as maturadas. São duas paixões dele, que tem ainda um fraco por velharias. À entrada do restaurante, de ar moderno, há um canto vintage, onde não faltam sofás, livros e um cartaz original das Festas da Senhora d’ Agonia de agosto de 1969.

Em terra de rio e mar, Rúben Oliveira aposta nas carnes maturadas. O seu restaurante chama-se Pecado Capital.
Fotografia: Rui Manuel Fonseca/GI

«Viver aqui é saudável. É uma cidade que traz tranquilidade, não tem o frenesim do Porto ou de Lisboa», defende Rúben, sublinhando a diversidade natural vianense. Sonha ter uma quinta onde veja crescer tudo o que põe na mesa, mas, por agora, é cuidadoso com a seleção das carnes (umas nacionais, outras vindas de Espanha, França, Estados Unidos e Argentina) e procura trabalhar com produtos locais e de época. Grelos, arroz de fumeiro e batata frita são alguns dos acompanhamentos disponíveis neste lugar, onde se vai para ceder à gula, através de um T-Bone ou de um filé mignon, e ainda para «degustar a vista».

Bicicletas, garranos e uma casa com 500 anos

As degustações possíveis de Viana do Castelo são ainda de outro caráter, mercê da sua moldura de natureza – rio, mar e montanha, como nunca é de mais lembrar. A empresa de animação Viv’Experiência, de Nuno Barbosa, ajuda a desfrutar dessa sorte, criando programas à medida dos visitantes. Num dia ameno e sem chuva, por exemplo, cai bem um passeio guiado de bicicleta pela Ecovia do Litoral Norte, inserida no Geoparque Litoral de Viana do Castelo, marcado por monumentos naturais locais, isto é, áreas classificadas com vários interesses e ocorrências geológicas.

Na praia Norte, para-se para inspirar os ares do Atlântico e olhar as pedras ruivas, formações rochosas de tonalidade avermelhada do período câmbrico, há mais de 500 milhões de anos.

Caso se opte por esta experiência, é de contar com 17 quilómetros a pedalar, entre o centro da cidade e Carreço, com Nuno a dirigir a atenção para os monumentos, curiosidades e geossítios que vão surgindo. Na praia Norte, para-se para inspirar os ares do Atlântico e olhar as pedras ruivas, formações rochosas de tonalidade avermelhada do período câmbrico, há mais de 500 milhões de anos. Seguem-se moinhos e demais belezas, até ao monumento natural local do Alcantilado de Montedor, guardião de salinas e arte rupestre.

Outra proposta da Viv’Experiência é um passeio de jipe pela serra de Santa Luzia para observar a paisagem, a fauna e a flora. A partida é do centro de Viana para o monte de Santa Luzia, com o seu belo templo. Dali, sobe-se para a serra, com paragens para avistar garranos (cavalos autóctones do Alto Minho) e para contemplar a vista que abarca a serra d’Arga, o rio Lima, a icónica Ponte Eiffel, a malha urbana e a praia do Cabedelo.

Os garranos, barrigudos e de olhos meigos, andam livremente pela Serra de Santa Luzia.
Fotografia: Rui Manuel Fonseca/GI

Daquele quadro faz parte a Casa Melo Alvim, o solar urbano mais antigo de Viana, de 1509, hoje um hotel de quatro estrelas. O chão é o original, assim como o corredor que vai da porta manuelina da entrada à escada de granito que leva ao andar nobre. Na receção há uma carranca «para afastar inimigos e pessoas indesejadas», aponta a diretora-geral, Daniela Ribeiro.

O hotel tem 20 quartos e suítes que retratam parte da história do país, através da traça original da casa. Os quartos (um com cama de dossel) foram decorados em estilos tradicionais portugueses dos séculos XVII e XVIII, do neoclássico ao rústico, sem esquecer o barroco. Não é novo na cidade, mas acaba de ampliar a oferta – tem cinco apartamentos de luxo (um T0 e quatro T1) e piscina. E continua a ser dedicado à filigrana. Na receção há vários exemplares em prata: brincos, colares, pulseiras, alfinetes. Faz sentido, já que Viana é, de muitas perspetivas, uma joia para se levar no peito.

Cozinha de autora com sabores regionais

A Casa Melo Alvim dá guarida ao restaurante Porta 93, da chef Mariana Neto Parra, uma vianense com forte apreço pelos produtos e receitas locais. As suas propostas têm uma base regional muito forte, ela só lhes dá uma nova roupagem.

A sopa de santola da costa, cuja carne é esfarelada no caldo, foge ao tradicional na medida em que contém coco, lima e gengibre

Por exemplo, a sopa de santola da costa, cuja carne é esfarelada no caldo, foge ao tradicional na medida em que contém coco, lima e gengibre. E a sua reinterpretação do cozido, que tem regresso marcado para o próximo inverno, apresenta todos os ingredientes do prato tradicional, mas de outra forma: as carnes de salga minhotas (entre elas, barriga de porco) surgem miudinhas e arrumadas numa trouxa de couve, com batata migada, puré de cenoura e chouriças minhotas esfareladas, sendo tudo regado com água do cozido.

A sobremesa pode ser parfait de chocolate negro, sorbet de ameixa e syrah e ameixa confitada. De terça a sexta, ao almoço, vigora o menu executivo, que dá direito a entrada, prato principal, sobremesa e bebida, por apenas 12 euros.

Cervejas artesanais e A Guerra dos Tronos

As cervejas artesanais são a grande aposta dos irmãos Henrique e Domingos Ribeiro, que abriram o bar Ribeiro’s Brewers, há menos de dois anos, ansiando pelo dia em que tenham à venda produções próprias. Por agora, são «produtores de cerveja de garagem» apostados em aproximar as pessoas deste mundo.

Há seis torneiras, com cervejas que mudam quinzenalmente, e dezenas de cervejas em garrafa ou em lata – portuguesas, espanholas, polacas, belgas, americanas, holandesas e não só. Para rematar, a dupla propõe tábuas de queijos e outros snacks, a saborear de olhos nas paredes, que têm escritos humorísticos, fotografias de Kurt Cobain, Elvis, The Beatles e demais músicos e referências a séries de culto, como “A guerra dos tronos” ou “Breaking bad”.

As paredes do bar de cerveja artesanal Ribeiro’s Brewers estão decoradas com imagens de músicos.
Fotografia: Rui Manuel Fonseca/GI

 

 

Fonte: Evasões

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