Quem compra os hotéis portugueses? Sete em cada dez são fundos

Elevado crescimento do turismo coloca Portugal e Espanha no radar de grandes fundos internacionais. Investidores norte-americanos, chineses e sul-coreanos lideram.

 

Os investidores privados têm cada vez menos espaço no mundo da compra e venda de hotéis. As transações têm agora como maiores protagonistas os gigantes fundos de investimento internacionais. “Um capital que não tem cara nem geografia”, diz Gonçalo Garcia, head of hospitality da Cushman & Wakefield.

As compras de cadeias hoteleiras por fundos representam já 68% das vendas de hotéis realizadas em 2018 na Península Ibérica, isto é, praticamente sete em cada dez unidades que mudaram de mãos. Há cinco anos, os fundos representavam apenas 50% das vendas.

“Este é um capital institucional que procura estabilidade e que investe em destinos que deem essa estabilidade. Portugal e Espanha têm apresentado um crescimento sólido e apresentam um padrão de saúde. Não é só porque o número de turistas está a crescer, é um tipo de turista que investe mais.”

No ano passado, o valor investido por estes fundos na Península Ibérica representou 1,9 mil milhões de euros, em compras diretas de unidades hoteleiras e outros dois mil milhões de euros em aquisições corporativas – do negócio e não apenas de um hotel.

Mas “a atração de capital fora da União Europeia é uma tendência internacional na hotelaria”, diz Gonçalo Garcia, que estima que 77% das compras e vendas de hotéis em Portugal e Espanha sejam protagonizadas por investidores estrangeiros.

No ano passado, o valor investido por estes fundos na Península Ibérica representou 1,9 mil milhões de euros

Neste pacote mais alargado estão 309 milhões de euros em investimento realizado pelos operadores hoteleiros e 380 milhões através do regime das sociedades de investimento e gestão imobiliária (SIGI) e outro tanto através dos bancos.

“Os maiores atores transfronteiriços são originários dos Estados Unidos, que investiram 2,3 mil milhões de euros, seguidos pela Malásia e México com 220 milhões e 210 milhões, respetivamente”, refere o estudo da Cushman.

Em Espanha, a força destes fundos é inegável. No ano passado, o fundo de capital de risco Blackstone tornou-se o maior proprietário de hotéis em Espanha, com a aquisição da SIGI Hispania, por 1,9 mil milhões de euros. Os 46 hotéis da Hispania levaram a Blackstone para um total de 17 mil quartos em Espanha, à frente dos 11 mil do Meliá, dos 10 mil do H10 e dos 9 mil dos Hoteles Globales. A chegada a Espanha aconteceu ainda durante a crise com a venda de carteiras de bancos.

Na realidade portuguesa, EUA, China e Coreia são os principais mercados de origem destes investidores, destaca Gonçalo Garcia, que considera o mercado asiático muito promissor para o futuro da hotelaria.

No primeiro semestre, Portugal registou um valor inédito nas transações deste segmento imobiliário de 469 milhões de euros

Foi precisamente a passagem dos hotéis Tivoli Avenida Liberdade, Tivoli Oriente e Avani Avenida Liberdade para o fundo Invesco (que gere os hotéis NH), por 313 milhões de euros, que fez catapultar o retorno obtido em Portugal com a venda de hotéis no arranque deste ano.

No primeiro semestre, Portugal registou um valor inédito nas transações deste segmento imobiliário de 469 milhões de euros, acima dos 461 milhões registados no mesmo período em Espanha. É algo que nunca tinha acontecido, revela a Cushman & Wakefield. “Este aumento deve-se claramente a uma transação, o negócio entre o grupo Minor e a Invesco que gere os hotéis NH e que é uma transação dificilmente repetível”, destacou Gonçalo Garcia.

No ano passado, a procura destes investidores já se tinha feito sentir. A Cushman & Wakefield estima um aumento de 51% no retorno financeiro obtido pela venda de hotéis e grupos a estes grandes investidores para um total de 226 milhões de euros. Em Espanha, um mercado “com 20 anos de avanço”, contabiliza-se um investimento de 3,8 mil milhões de euros em 2018, uma queda de 18,7%.

Ana Margarida Pinheiro é jornalista do Dinheiro Vivo

 

 

Foto: Gustavo Bom/Global Imagens

Fonte: Diário de Notícias

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