Estudantes e desempregados brasileiros também partiram hoje de Lisboa nos voos para turistas fretados pelo Brasil

Estudantes e desempregados brasileiros, alguns a viverem em abrigos, conseguiram lugar num dos dois voos fretados pelo Estado brasileiro que partiram na quinta (16) de Lisboa para repatriar viajantes nacionais que ficaram retidos em Portugal por causa da pandemia de covid-19.

Roberto era um entre dezenas de cidadãos daquele país que na quinta de manhã aguardavam pacífica e ordeiramente numa fila pela sua vez para poderem entrar na porta das partidas do aeroporto de Lisboa.

Trabalhava em Portugal há um ano, nos últimos seis meses numa empresa de instalações de gás em Portugal, com contrato, mas por causa da pandemia, ficou desempregado há um mês e meio, contou à Lusa.

Apesar de ter direito a subsídio de desemprego e a empresa onde trabalhava lhe ter pagado tudo o que era devido, nunca conseguiu um contacto com a Segurança Social, nem entender os bloqueios no preenchimento dos formulários `online`.

Os dias foram passando e foi ficando sem dinheiro para pagar a renda de casa, em Mouzelos, Santa Maria da Feira, ou sequer para comprar a passagem de regresso ao Brasil.

Acabou, assim, por bater à porta de uma associação de solidariedade no Porto a pedir abrigo.

“Vivia num abrigo com mais oito pessoas há duas semanas”, até esta quarta-feira, dia em que recebeu o telefonema do consulado a dizer-lhe que tinha lugar no voo fretado pelo Estado brasileiro que partia hoje à tarde de Lisboa com destino a São Paulo, porque o que partirá do Porto no próximo sábado já está completo, relatou à Lusa.

“Muito difícil, mas pelo menos eu estou conseguindo a repatriação, que é o mais importante”, afirmou com um sorriso, agradecendo à associação de solidariedade que o apoiou pela forma como foi tratado no abrigo.

Situações bem diferentes são as de Manuela e de Fernando Rocha, tio e sobrinha. Ela, estudante da Universidade Católica, em Lisboa, ao abrigo de um programa de intercâmbio de estudantes, ele funcionário público do Brasil que tinha pedido uma licença sem vencimento de um ano para trabalhar no Reino Unido, onde residia quando começou a pandemia de covid-19.

Fernando Rocha conseguiu um dos últimos voos de Inglaterra para Lisboa, no dia 18 de março. O objetivo era vir para junto de alguém da família, mas também na tentativa de, via Lisboa, conseguir mais facilmente um voo de regresso ao Brasil.

Estavam juntos na fila hoje de manhã. “A gente tinha um voo na Latam, quando foi cancelado, optámos pela TAP, e comprámos a passagem e no dia seguinte foi cancelada”, contou Manuela, que sente que com aulas paradas não faz mais sentido estar em Lisboa.

“A família está preocupada connosco e nós estamos preocupados com eles e é também a questão financeira, porque para a gente é tudo vezes cinco. Não é um euro, são cinco reais. Aqui o aluguer também é caro. Então para pagar tudo isso e não ir para aulas…”, relatou, enquanto aguardava, feliz, no primeiro lugar da fila para o voo da tarde.

Já Cleusa era cabeleireira em Lisboa, onde morava com um filho de 09 anos. “Fechou tudo”, contou à Lusa. Tinha um voo marcado para ir de férias ao Brasil para julho, mas foi cancelado.

Tentou um outro da Latam para 01 de maio, mas não conseguiu, e confessou: “Perdi o emprego e estava a viver em casa de amigos. Não era fácil. Porque você morar num lugar que tem condições de pagar é uma coisa, morar com os outros é diferente”.

Não era única naquela situação: muitas pessoas que se encontravam hoje no aeroporto, na esperança de deixar Portugal, ficaram sem trabalho e sem apoios.

As autoridades brasileiras fretaram à TAP seis voos de repatriamento de cidadãos que se encontram em Portugal, para se realizarem este mês, no valor de 1,4 milhões de euros, disse à Lusa fonte do consulado brasileiro.

Para já, está garantida a realização de cinco destes voos. Dois deles partiram hoje de Lisboa e, no sábado, sairá um do Porto. Na próxima semana, estão previstos mais dois, ambos a partir de Lisboa: um no domingo, dia 19, e outro na quarta-feira, dia 22.

Todos os voos têm como destino São Paulo. A bordo vão, na sua maioria, viajantes brasileiros que, por causa dos cancelamento de voos e outras restrições resultantes da pandemia da covid-19 tinham ficado retidos em Lisboa, mas também cidadãos brasileiros residentes em Portugal que se encontravam em situação de vulnerabilidade, disse à Lusa Izabel Cury, do consulado brasileiro em Lisboa.

O Brasil ultrapassou na quarta-feira a barreira dos três mil novos casos diários do novo coronavírus, registando o número recorde de 3.058 infetados e 204 mortos nas últimas 24 horas.

A nível global, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 133 mil mortos e infetou mais de dois milhões de pessoas em 193 países e territórios. Mais de 436 mil doentes foram considerados curados.

Fonte: Lusa / RTP

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