Enoturismo. O vinho já é o novo embaixador do país

Governo lançou programa de ação que ajuda a promover o Enoturismo.

Em Portugal há cada vez mais quintas a abrir as portas aos turistas. Brasileiros e americanos são os principais clientes.

Não falavam línguas, nem havia visitas estruturadas, mas, se aparecesse um turista, os portões da adega abriam-se para um passeio. O comando era assumido por um dos trabalhadores mais antigos e contava-se a história da Casa de Azeitão, ao mesmo tempo que se mostravam os processos.

Viviam-se os anos 1960 e o interesse por conhecer as quintas e as vinhas espalhadas pelo país ainda não tinha nome de enoturismo. “A procura era muito diminuta e pontual”, conta Sofia Soares Franco.

É a responsável de Enoturismo da José Maria da Fonseca, uma entre tantas quintas vitivinícolas que se profissionalizaram para transformar o vinho num produto turístico. A profissionalização é um dos maiores sinais da passagem do tempo, adianta ao Dinheiro Vivo: “Em 2006, introduzimos guias que falavam vários idiomas e apostámos numa profissionalização do setor.”

Os bons resultados pediam mais e, há dois anos, a José de Sousa, quinta que o grupo mantém na região do Alentejo, também se abriu ao enoturismo, com uma pessoa a tempo inteiro disponível para receber visitantes. Um retrato do Banco de Portugal ao setor do vinho comprova esta realidade: enquanto apenas 18% das empresas vitivinícolas, em 2017, eram exportadoras, obtendo 61% do seu volume de negócios dessas vendas externas, as que tinham uma componente de enoturismo viam as exportações subir para 27%, com 80% do volume de negócios a chegar do estrangeiro.

Ainda é difícil perceber quantos dos 21 milhões de turistas que Portugal recebe são enoturistas (em 2016 foram 2,2 milhões). Este exercício vai agora começar a ser feito pelo Turismo de Portugal, que pôs, nesta semana, em prática um programa de ação que pretende não só conhecer melhor esta realidade mas também apostar numa promoção conjunta do Portugal vitivinícola lá fora.

A ideia do Turismo de Portugal é potenciar o cross-selling entre vinho e turismo, induzir boas práticas nos agentes do setor, contribuir para a estruturação e valorização de destinos e rotas de enoturismo e valorizar os territórios vinhateiros. Ao todo, o organismo liderado por Luís Araújo vai destinar 5 milhões de euros para ações de promoção e formação. “O que vamos conseguir com este programa é de alguma forma articular toda a oferta que existe, dar escala e ganhar dimensão em termos internacionais para nos afirmarmos como uma referência mundial do enoturismo”, explicou Ana Mendes Godinho, secretária de Estado do Turismo ao Dinheiro Vivo. “Aqui, o objetivo é estarmos todos focados, alinhados numa estratégia comum, articulando também vinho e turismo para ganharmos cada um de nós mais valor”, continuou.

É mais um passo para aumentar a notoriedade do país. “Que o vinho consiga vender (Portugal) acrescentando valor e que a notoriedade que o vinho tem também nos ajude a posicionar o país”, disse Mendes Godinho. “Somos pequenos, temos uma imensa diversidade em termos de território, estilos de vinho, diferentes adegas. Esta preocupação e foco do Turismo de Portugal no enoturismo em criar mais notícias e a ter promoção externa vai nos ajudar a desenvolver e a captar mais público para nos visitar e conhecer os nossos vinhos”, disse ao Dinheiro Vivo, Francisco Ferreira, responsável de enoturismo da Adega Maior.

Entre os planos do governo está a atração de jornalistas internacionais com fun trips e press trips. Estão especialmente focados nos EUA e no Brasil, mercados apreciadores de vinho, fortes compradores, e que reconhecem o enoturismo como um motivo para viajar. Este maior conhecimento sente-se nas quintas. “Hoje, mais do que uma vista técnica os turistas querem uma experiência”, realça Sofia Sousa, que tem visto chegarem cada vez mais visitantes internacionais e, com eles, saírem cada vez mais garrafas para o estrangeiro. Veja também: Está aberta a caça ao talento para o mundo do turismo São conhecedores da matéria, conta, por sua vez, Nuno Pereira.

A representar a Quinta da Ravasqueira, em Arraiolos, o técnico de enoturismo reconhece que “os nossos maiores mercados neste momento são o norte-americano e o brasileiro”, diz ao Dinheiro Vivo, adiantando que o turista nacional também tem o seu peso. São também um mercado onde a TAP Wine Experience faz sucesso.

Não é uma quinta, são várias. A bordo dos aviões da companhia nacional, a transportadora aérea arranca com uma viagem enogastronómica que depois convida a que seja continuada em terra. “Iniciámos com 55 referências de 38 produtores diferentes e com todas as campanhas que temos feito conseguimos mais umas 20 referências”, conta ainda Joel Fragata, responsável de produto da TAP ao DV.

Tudo começou há dois anos quando a companhia percebeu que comprava 1,2 milhões de garrafas de vinho exclusivamente português. A bebida a bordo tornou-se assim uma montra. “É um primeiro contacto com os vinhos portugueses”, diz o responsável.

 

Foto: Reinaldo Rodrigues/Global Images

Fonte: Dinheiro Vivo

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